quinta-feira, 5 de março de 2020

solfejo

Se ontem eu te gritei 
Desafinando-me em lá
Hoje em sol te canto
Convido-te a solfejar
Novo mantra de amar

Como Jó, me gritavas
Outrora fiz-me mudo
Para ouvir teus gritos
Que anunciavam o fim
Apocalíptico do mundo

Castrei os meus desejos
Calei os meus chamados
Ergui-me do submundo
Busco um mi profundo
E solto a voz desafinado.





sábado, 4 de junho de 2016

Aparição

Aparição

Um facho da lua atravessava a fresta da janela, iluminando parcamente o quarto. No beliche ao lado meus dois companheiros de cela se entregavam em carícias e gemidos, provavelmente pensavam eles que eu dormia, e para não assustá-los permaneci imóvel, sem conseguir me concentrar em outros pensamentos. Por fim, extasiados limparam-se e cada qual procurara seu leito. No relógio da Capela da Boa Morte, as badaladas da meia noite acabavam de soar. Tentei dormir.
Meus olhos não se fechavam. O facho da lua aumentava como se a fresta da janela se rendesse ao seu toque. Levantei-me, corri à janela, uma luz muito forte vinha de fora, não era da lua, procurei-a e para meu espanto ela vinha do chafariz. A água esguichada era uma névoa de estonteante brancura, e dentro daquela névoa ela surgiu. Uma coroa de flores, os cabelos encaracolados escorridos pelos ombros, os seios nus, os braços estendidos a me chamar. Vem!
- É a virgem, é a virgem!! Gritei correndo pelos corredores à procura da porta principal. Minhas mãos tocaram na tranca, outras duas me seguraram pelas costas.
- É a virgem! Ela está lá fora! Ela está no chafariz e está me chamando!
- Calma, calma, disse o Monsenhor, você teve um pesadelo!
- Não, não é pesadelo. Ela está lá fora, e disse vem! Me larga, me solta. Outras mãos já me dominavam por completo.
Julgava que todo o seminário estivesse acordado. Levaram-me ao quarto, meus companheiros que antes gemiam de prazer, agora roncavam como porcos, acordaram com o barulho, e ao ver tanta gente entrando.
- Acabou, cada um para sua cela, rosnou o Monsenhor, agora deite-se e durma. Virei para o canto e senti que quatro olhos me fitavam assustados, deixei que pensassem o que bem entendessem. No sonho, ela apareceu, agora com uma capa transparente, o tom rosa dos bicos de seus seios pareciam botões em flor, seu sorriso, como criança inocente, mordia meu sexo me dominando e me perdendo.
No dia seguinte na mesa do café tinham do que falar, fiz minhas orações, me alimentei e corri para a capela.
- Padre, tenho que me confessar.
- Eu estava te esperando, meu filho! Fale!
- Eu sonhei com ela de novo! Dessa vez ela era uma mulher diferente, dava para ver seus seios e ela mordeu meu sexo, e eu me molhei.
- Deus meu! Você precisa rezar mais meu filho, sua cabeça está povoada de pensamentos pecaminosos, hoje ficará sem alimentar, jejuará o resto do dia, tomará somente água e dormirá no quarto da purificação, vá, é melhor que não se junte aos outros, recolha-se até que alguém lhe chame para o quarto da purificação, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo.
Saí chorando e voltei ao meu quarto. Ouvia ao longe as vozes do canto gregoriano, sentia cada passagem da missa matinal, mas ela era a única imagem, em cada altar lá estava ela, em um sorria, no outro a capa transparente mostrava seus contornos, no outro sua boca parecia me chamar, no outro seus braços estendidos...
- Está na hora! Uma voz feminina gritara do lado de fora. Saí como se me conduzissem à forca.
- Vai passar meu filho! Dona Filhinha beijou-me nas faces.
Entrei no quarto da purificação, no canto um vaso sanitário, no outro uma cama sem colchão, perto da janela com grades, sobre uma mesa um chicote, velas, crucifixo, uma jarra com água e um copo.
- Depois Monsenhor vem falar com você! Fica com Deus meu filho.
Saiu a velha senhora trancando-me por fora. O frio do quarto me apavorava, comecei a rezar, e em vez de calma veio a excitação. Esqueci-me da reza e minhas mãos começaram a me acariciar, tudo ficara rodando, sem cor, sem nexo, as coisas retorcidas pareciam levitar pelo quarto, até que um barulho no trinco da porta.
- Tudo bem meu filho?
- Não sei Monsenhor, eu...
- Você está pálido, o que estava fazendo?
- Rezando, Monsenhor.
- E porquê o medo? Quem reza não tem medo de nada.
- Me assustei com o senhor.
- Só assustamos quando estamos fazendo algo de errado, fale meu filho, o que estava acontecendo quando entrei neste quarto.
- Monsenhor, eu tenho vergonha de dizer.
- Diga, meu filho! Pode confiar em mim.
- Bem Monsenhor, eu comecei a rezar, e em vez de vir a paz fiquei excitado, as coisas começaram a perder o nexo e comecei a me acariciar, tudo parecia rodar quando o senhor entrou.
- E acabei te interrompendo, não é? Isso é normal meu filho! Senta aqui, aqui mais perto de mim. Olha filho, o demônio está em todos os lugares, até mesmo em um seminário, você teve um encontro com ele na noite de ontem, por isso essa excitação.
- Mas Monsenhor, o demônio não pode ser tão bonito quanto aquilo que eu vi, parecia a virgem.
- E ela te chamava para que?
- Não sei, ela me estendia os braços.
- E você a desejou, não é? Você desejaria sexualmente a virgem, nossa mãe, diga filho, você a desejaria?
- Não, Monsenhor!
- Então filho? Só podia ser o demônio! Vou ter que lhe castigar filho, esse chicote que aí está é para isso, tire suas roupas. Tirei-as ficando de cuecas.
- As cuecas também, filho.
O frio que entrava pelo quarto era recebido em meu corpo branco e nu, Monsenhor, com o cabo do chicote começou a me acariciar, lembrei-me dos companheiros de cela e fiquei excitado. Recebi a primeira chibatada nas costas, como não chorei, recebi outra mais outra. Minha excitação aumentava, ele chorava e batia, depois fechou a janela e me masturbou jogando-me na cama.
- Amanhã tudo estará bem! Fique com Deus meu filho!
A dor moral e física era insuportável, acordei-me com o barulho do trinco, vesti-me e corri para meu quarto, tomei banho, as marcas das chibatadas doíam e estavam bem evidentes. Vi que todos me olhavam com um dó e uma interrogação. Tomei café , não quis ir à missa matinal. Peguei os livros e dirigi-me à sala de aula. Ninguém nada perguntou, talvez já sabendo de tudo, ou talvez proibidos de indagarem sobre o assunto. Veio a noite, o cansaço e o sono me dominaram. Passara a semana sem novidades, ninguém falava nada, as coisas já se aquietavam. Nas missas matinais minha participação era certa e solicitada, até que no fim da semana Monsenhor liberou os seminaristas para visitarem seus familiares.
Para tomar conta das cabras , do jardim e das hortaliças fora eu designado. O seminário vazio, somente Dona Filhinha, Monsenhor e eu. No quarto, agora sozinho, sentia falta de meus companheiros, apesar de saber que me achavam com cara de bobo, pensando que eu dormia e nunca via nada que faziam.
Peguei um livro, a vida de Santo Agostinho, comecei a ler, a leitura me extasiava, mas o sono veio e coloquei-o na cabeceira.
Um canto agudo e suave era ouvido lá fora, sem fazer barulho abri a janela, lá estava ela, o mesmo manto, a mesma imagem, ela dançava sensualmente e me estendia os braços, fechei a janela e saí pelos corredores de forma que não chamasse a atenção do Monsenhor e de D. Filhinha. Destranquei a porta e corri. O chafariz esguichava jatos brancos e a luz da lua brincava em suas gotículas.  Onde ela poderia estar? Subi na beirada do chafariz, e ela saiu correndo em direção ao bosque.
- Espere! Gritei ansioso por conhecê-la.
Com o meu grito luzes se acenderam e pela porta apareceram o Monsenhor e D. Filhinha com uma tocha nas mãos. Também corri. Já não existia capa, seu corpo nu transfigurava com a luz do luar, com muita sensualidade ela olhava para trás e ria alto, sem que eu a visse mais de perto, pulara no riacho, eu atrás. Tudo escureceu bruscamente, quando abri os olhos estava deitado no colo de D. Filhinha, e o Monsenhor dando tapas em meu rosto tentando me acordar. Olhei para o riacho, só vi uma rabanada de um vulto enorme que subia em seu pequeno leito.
- Era a virgem, filho? Fitava-me com um leve sorriso o Monsenhor.
Não vi meus companheiros voltarem do fim de semana,

quando acordei já estava aqui, alguns dias já haviam passado, e... , com licença, agora tenho que tomar meu calmante.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A torre

A Torre



No jardim uma formiga carregava uma imensa folha, meus olhos não conseguiam acreditar que uma criatura tão pequena pudesse ter tanta força e equilíbrio.  Com cuidado levantei a  folha e a formiga correu desesperada como se lhe tirassem o seu mundo. Eu agachada não percebia que estava sendo observada, já havia  algum tempo, até que ele chegou e me disse: O que olhas tão concentrada ai neste jardim?  Eu meio sem graça disse que estava observando aquela formiga e que não o tinha visto chegar. E ele: Porque não chamaste o senhor Jacinto? Estas formigas podem acabar com o jardim e as hortaliças, ah menina, Senhor Jacinto, senhor Jacinto? Saiu ele correndo em volta da casa à procura do jardineiro.
Após alguns minutos voltou resmungando que não tinha ninguém em casa e perguntando: Cadê todo mundo? Seu Jacinto, tua mãe?  Eu expliquei que o jardineiro tinha saído para comprar adubo e minha mãe estava ajudando a dona Mariquinhas a alvejar as toalhas para a festa da padroeira, e eu... E tu o que fazes aqui? Estou esperando minha mãe, ela disse que iria demorar, não tem ninguém lá em casa e aqui é mais seguro. Ah! E como se estivesse pensando como me agradar, trovejou: Conheces a nova torre? Está quase acabada, já colocaram o sino, as cordas, agora falta pintar e fazer uma boa limpeza, queres ir lá ver? Quero, falei sem pensar no quanto meu coração descompassava.
Subimos as escadarias como duas crianças, a escuridão descompassava ainda mais meu coração, ele segurava a batina com as duas mãos levantando-a para não tropeçar. Chegamos no alto da torre ofegantes e uma breve luz da tarde entrava pela janelinha onde o sino estava pendurado. Cuidado, senão pisas na corda e tocas o sino. E se tocar? Vão descobrir que estamos aqui. E o que é que tem isso? Não é bom. Porquê? As pessoas podem maldar,... estás cansada, faças isto, levante os dois braços e inspire, abaixe-os e expire, isso, de novo, levante, inspire, abaixe, expire. Está mais calma agora? Estou, mas o senhor está suando, estou sentindo sua testa  encostada em minha nuca, e sua respiração também está bem agitada, agora o senhor já pode me deixar, já estou mais calma.
Desvencilhei dos seus braços que me apertavam e me puxavam de encontro a seu peito, sentia sua excitação debaixo da batina, de encontro às minhas nádegas, me corei e quis correr, ele abaixou a cabeça como que envergonhado, comecei a perguntar sobre os toques do sino e aquele mal-estar foi se apagando levemente.
Quando descemos da torre o senhor Jacinto já estava chegando com o adubo, e os dois foram para os fundos a conversar sobre as formigas. Sentei-me  num tronco cortado e fiquei pensando em tudo que acabara de acontecer. Eu já não era mais uma criança,  meus quadris já realçavam e meus seios já necessitavam serem tapados e enrolados com uma faixa. Senti que molhara a calcinha e não era menstruação, fazia poucos dias que ela tinha secado, minhas regras já eram regulares desde os doze anos.
Corri para o banheiro para ver o que tinha acontecido, não era xixi nem menstruação. Minha combinação também tinha molhado um pouco, fiquei preocupada que minha mãe visse e perguntasse o que era, mas isso não aconteceu. Minha mãe chegou, correu para a cozinha a preparar o jantar do padre Augusto e logo me chamou para ir embora para  nossa casa.
Ao chegar em casa tomei banho depressa e no banheiro lavei minha calcinha e minha combinação, o que foi um espanto para minha mãe, que nunca me vira fazer aquilo. O que aconteceu minha filha? Nada mãe, é que quando eu ia entrar na banheira a combinação e a calcinha caíram e molharam, aí aproveitei e as lavei. Corri a colocar as peças no varal e voltei para o jantar.
O cheiro do tempero invadia a casa e minha mãe cantava uma alegre cantiga de roda. Naquela noite só estávamos nós duas em casa, meu pai e meu irmão estavam garimpando pelos lados da fazenda do Gualaxo, e só voltariam no fim de semana. Jantamos, fizemos nossas orações e fomos dormir.
 Não consegui, o sino tocava,  bem em cima da minha cabeça, o padre Augusto subia e descia a puxar a corda para que o sino tocasse, quando a corda o puxava para cima eu via debaixo de sua batina seu sexo ereto e suas nádegas brancas. Virava de um lado para outro, tapava os olhos com o travesseiro, rezava e nada. Corri para o quarto de minha mãe e me deitei com ela, só assim que consegui a esquecer aquela cena. Ela não me disse nada, só que era normal a gente ter medo de dormir sozinha de vez em quando, principalmente quando nem o pai  nem o irmão não estavam em casa.
Fui para o colégio no dia seguinte, e as lições acabaram me  fazendo esquecer tudo. Os dias foram passando e tudo corria normalmente, nada me perturbava. Não vira mais o padre Augusto de perto, só durante a missa e na festa da padroeira. Eu e minhas primas carregamos o andor, geralmente o padre dá uma benção às virgens que carregam o andor mas dessa vez parece que ele tinha esquecido. Minhas tias reclamaram, mas minha mãe disse que isso era natural, o padre não tinha tanto tempo, e desde que ele dava a benção para todos na hora da procissão nós já estávamos abençoadas.
Após alguns meses tudo já estava em seu devido lugar, a festa da padroeira já tinha passado, as aulas já tinham terminado, e minhas férias escolares pareciam começar na mesma rotina, pic-nic com as tias, brincar de roda com as primas, passeio no sítio da vovó.
Assim se passavam as férias quando um dia minha mãe me chamou e disse que era para ir para a casa paroquial, que ela teria que sair com o senhor Jacinto para buscar algumas mudas de hortaliças e era para eu esquentar o almoço para o padre Augusto, assim que ele chegasse. Fui tranqüilamente, levei alguns livros para folhear e me sentei na ante-sala. Padre Augusto chegou e não se surpreendeu com a minha presença, apenas disse que iria tomar um banho enquanto eu esquentasse o almoço.
Quando eu estava no fogão ele me gritou para levar a toalha que já tinha acabado o banho. Corri a procurar onde mamãe guardava as toalhas e encontrei uma branquinha e macia. Ao chegar na porta do banheiro bati de leve e senti que a taramela estava solta, ele estendeu a mão e lhe entreguei a toalha. Com poucos minutos ele chegou na cozinha com aquele cheiro de sabonete e uma túnica bege para almoçar, não disse uma palavra, almoçou e foi logo a se deitar na rede para sua sesta.
Almocei, lavei as vasilhas, limpei a cozinha e fui para o jardim.  A inquietação tomou conta de mim. Um frio misturado com calor subia na minha espinha dorsal, meu corpo parecia tremer, não conseguia ordenar meus pensamentos. Peguei os livros e comecei a folheá-los, as letras embaralhavam, as figuras sumiam, e de repente, estava molhada.
Peguei minha sacola e corri para o banheiro dos empregados para me banhar.  A água morna me dava uma sensação gostosa, me acalmava, joguei minha cabeça para trás e deixei que aquela coisa boa tomasse conta de mim. Pela primeira vez me masturbava conscientemente. 
Ao terminar, senti que alguém andava no corredor, desliguei correndo o chuveiro e comecei a me secar. Com um toque na porta ele perguntou: Tudo bem aí?  Eu disse sim, e perguntei se estava precisando de alguma coisa. Não, apenas percebeu que eu tinha sumido. Troquei-me, destranquei a porta, quando saí, um susto. Que foi padre? Está sentindo alguma coisa? Não, eu estava te esperando. Pra que? Vamos na torre, agora ela já está pronta e limpa. Mas, padre, eu...Vamos, tem que ser agora! Disse isso segurando firmemente meus braços e fixando os meus olhos.
A sacola caiu no chão, soltei-me e comecei a correr. Ele também corria, e ríamos, e corríamos, tomei as escadas da torre e quando já estava lá em cima, muito ofegante, ele chegou. Me tomou nos braços, e disse que meu cheiro era bom, que eu ficava linda com os cabelos molhados, que eu estava quentinha, que minha pele era macia, que meus lábios eram carnudos, que...
Ali nos amamos, a pequena gota de sangue caíra em sua batina bege, nossos corpos brancos buscavam-se com sofreguidão, minha combinação e meu vestido estavam na escada como se escondendo daquela cena, o frenesi de nossos corpos, nossas bocas, nossos olhos a revirar, as nossas lágrimas, a explosão. Minhas pernas esticaram, tocaram na corda e o sino tocou.
Bruscamente ele puxou minhas pernas e disse. Cuidado. Levantou-se colocando apressadamente a batina e desceu correndo as escadas. Chorei, um choro de emoção, de tristeza, de arrependimento, de felicidade. Chorei muito. Peguei minha roupa, vesti, desci as escadas como se estivesse descendo para o inferno. O céu estava ficando para trás, cada degrau descido doía mais meu coração, as lágrimas voltavam agora ainda mais confusas, corri para o banheiro.
Tomei novo banho, essa água morna não me acalmava mais, fechei a torneira quente e deixei a água fria, me encolhia como se quisesse morrer, ali, debaixo de um chuveiro da casa paroquial. Fechei  as torneiras, sequei-me, vesti-me. E agora como sair dali, como encará-lo?  Quando cheguei na cozinha ouvi  barulhos no banheiro social, ele estava tomando banho também. Será que estava chorando como eu? 
Toquei na porta e disse, padre, posso ir embora? Vá, e não volte mais.  Cabisbaixo peguei minha sacola, meus livros, meus pensamentos, meu sofrimento, minha felicidade e saí.
Na desordem emocional, cheguei em casa. Pendurei minha toalha, guardei meus livros, coloquei minha roupa no balaio de roupa suja. Deitei, dormi. Só acordei com minha mãe colocando as mãos na minha testa. Que houve minha filha? Você está quente, vá tomar um banho frio agora, vou preparar um chá para você, foi tudo bem lá na casa paroquial?, Trouxemos tantas mudas de hortaliças, até aqui pra casa eu trouxe, era muda demais, você precisava ver, o mundão de horta que eles têm.
Eu não ouvia nada direito, corri para o banheiro, tomei outro banho enquanto minha mãe preparava o chá, tomei, agora minha mãe calada, não tirava os olhos de cima de mim. Saí, voltei para a cama, chorei.  Minha mãe me olhava com aquela interrogação na testa. Sentou-se e colocou minha cabeça no seu colo e disse: fale, menina, o que tanto te incomoda?
É o padre mãe, ele me fez mal! Bate na boca menina, não repita isso nunca mais. É verdade mãe, não posso esconder isso da senhora, aconteceu. Tomara que mal pior não te aconteça, filha, dorme, amanhã tudo se resolve.
Dormimos, na mesma cama. De madrugada ouvi o sino, estava sonhando? Não, era mesmo aquele sino, e cada vez mais forte. Acordei minha mãe, ela se assustou, não deu muita importância, dormiu de novo. Fiquei pensando até que o sono veio e me roubou os pensamentos.
No dia seguinte, todos procuravam o padre, todos comentavam aquele sino de madrugada, até que alguém desceu correndo da torre e gritando, o padre Augusto morreu, o padre Augusto suicidou.
Na corda do sino estava pendurado um corpo branco e nu, no chão a mesma batina bege com a mesma gota do meu sangue. Sentei-me na beira do jardim a olhar se ainda existiam formigas.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

fim

...
O tempo mudou muito, não é? É sempre assim, quando se aproxima o Natal, começa a esfriar, a chover e as pessoas ficam melancólicas. Mas o espírito de Natal faz com que tudo isso passe em brancas nuvens, em todos os lares se preparam os doces, os enfeites, as músicas...

Viu como a cidade está bonita? Toda iluminada! Isso não te deixa feliz? É nessa época que as pessoas fazem as pazes, perdoam-se mutuamente, fazem novos planos para o ano vindouro, andam com os pensamentos voltados para a renovação. É muito bonito isso, você não acha?

A Constância está curtindo frutas, ela disse que você gosta muito de  frutas curtidas e que no Natal passado vocês fizeram juntos sete frutas curtidas, você fez alguma este ano? É ruim fazer as coisas só pra gente não é? Quando eu vivia sozinho, achava péssimo o Natal e o fim de ano.

Por quê você não passa o Natal lá em casa? Poderíamos convidar alguns amigos seus e de Constância, porque os meus amigos não passam o Natal aqui! Aí poderíamos fazer uma brincadeira de amigo oculto, assim ninguém ficaria sem presente, o que você acha?

Ora Jeremias, estou tentando ser seu amigo, estou tentando te conhecer melhor, por quê você não fala comigo? A Constância gostaria que fôssemos amigos e eu não me oponho, sempre achei você um cara formidável, um pouco convencido, mas mesmo assim uma pessoa amigável.

Quando eu conheci vocês, eu sempre dizia: “como são parecidos” ou “ aí está um cara de sorte”. Eu via como a Constância se parecia com você e sinceramente eu não sabia de quem eu mais gostava, só sabia que queria ser amigo de vocês. Por quê você viajou em Janeiro Jeremias? Por quê deixou Constância sozinha? Eu fiquei com pena, minhas visitas  se tornaram freqüentes, aí, aconteceu!!!

Mas eu não me arrependo Jeremias. Eu desejei Constância mais do que qualquer coisa no mundo, sei que foi você o maior amor da vida dela, mas hoje quem ela ama sou eu. Ouviu Jeremias? Sou eu quem ela ama! Ouviu seu surdo, sou eu que tenho me sentar com ela à mesa na hora das refeições, sou eu que tenho massagear os pés dela todas as noites antes de dormir, sou eu que tenho vestir estas roupas ridículas, porque é assim que você gosta. Seu filho da puta, sou eu que tenho ver seu nome escrito em todos os lugares, sou eu que tenho aturar violetas por todo o canto da casa, que tenho pintar todos os dias para que a Constância me deseje.  Seu depravado, mascarado, viado, sou eu que tenho aguentar os dedos de Constância no meu cu, porque ela disse que era assim que você gozava, sou eu que tenho ser você a todo momento.

Seu sacana, por que você me faz passar por tudo isso? Por que tenho agentar tudo isso? Oh, Jeremias, você é mesmo assim? Como eu te odeio, por que você não sai de nossa vida?

Eu estou enlouquecendo Jeremias, já nem sei do que gosto, a única coisa que sei é que tenho de me parecer com você.
...
Agora, uma coisa aprendi a gostar de verdade, é quando nos lambuzamos de doce e fazemos amor. Adoro a Constância espalhando um doce em meu corpo e depois o retirando com a língua.  Ela disse que foi você quem a ensinou, mas eu não acho! Tem muito dela nessa história. Você também gostava não é Jeremias? É uma pena que você a perdeu não é? Você a perdeu e eu a tenho, e tenho de ser você o tempo todo!!!

Já nem sei se sou eu ou se sou você.

Jeremias, tem uma cor que você não classificou e que eu estou usando muito ultimamente, sabe qual é? O cinza, eu acho que é a cor do crime, do ódio, do assassinato....o que você acha?

Agora vou me calar, você quer falar alguma coisa?
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Por quê você não vai lá em casa Jeremias?
...
Por quê você não morre Jeremias?


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

...

...
Você não vai falar nada Jeremias? Vai ficar aí com essa cara de vencedor, como quem diz: Ela ainda me ama! Você acha realmente que ela ainda o ama, só porque foi o primeiro na vida dela? Isto não quer dizer nada, as primeiras relações sexuais são sempre muito dolorosas, apesar de Constância gostar de sentir dores. Droga!!Droga!! Droga!! Ela gosta de sentir dores na hora da penetração!!!....

Mas nada disso importa não é Jeremias? Hoje ela está comigo e eu a faço feliz, mesmo tendo que me parecer com você. Sou eu quem a aqueço nas noites de frio, sou eu quem a leva nos infernos na hora do gozo, mesmo ela gritando o seu nome, sou eu quem a acolhe na hora da tristeza, mesmo cantando a sua ridícula música, sou eu, sou eu sou, eu.. Sou eu Jeremias?

Ah, você está nervoso!  Está usando o preto! A Constância disse que você sempre usava o preto quando estava nervoso ou quando alguma coisa o incomodava. Eu te incomodo Jeremias? As coisas que digo te incomodam? Se eu te incomodo é porque você me acha melhor que você, mesmo não achando eu estou melhor que você, pois tenho uma coisa que você ama. Use o preto Jeremias, pois preciso copiar você, não tenho de ser igual a você para satisfazer Constância? Vá Jeremias, o preto é uma cor bonita, a Constância adora o preto. Ela não tirava a roupa e lhe oferecia quando você estava com raiva?  Agora quando quero que ela me satisfaça, finjo estar com raiva e pinto as telas de preto, (ri) ... ela vem como uma cadelinha no cio e me oferece aquele corpo cheiroso só para acabar com a minha suposta raiva. 

Você a treinou bem Jeremias! Pena que não a manteve não é? Você a treinou e quem a usa sou eu, sou eu, sou eu... Sou eu Jeremias? Não Jeremias, não sou eu! Acho que virei você, estou ficando sem personalidade definida. Constância me faz a cada dia uma nova exigência, a cada dia ela quer que eu me pareça com você, quer que eu goste das mesmas coisas de que você gostava, até das violetas!

Você ainda gosta das violetas Jeremias? As nossas estão lindas, temos de diversas cores, Constância cuida muito bem delas, quem cuida das suas agora? Ou você já desistiu também das violetas?  Talvez elas façam você se lembrar de Constância, é isso Jeremias? Você não diz nada, acabo tirando minhas próprias conclusões! Por que você não me ajuda? Preciso te conhecer melhor, Constância vive falando do seu otimismo, da sua maneira de pensar positivamente, da forma que você consegue as coisas que te interessam, do seu senso de humor e tudo que acontece nos seus relacionamentos sociais. Eu fico tentando entender, como você pode ser otimista, acreditar em pensamentos positivos, em leis de triunfo, se nada disso ajudou a conservar Constância junto de você? Ou foi você que não a quis?

Oh, Jeremias! Fale comigo! Me diga a verdade, se ela foi rejeitada, eu é que estou enganado! Eu sempre acho que fui eu quem a conquistou, quem a tirou de você, eu sempre acho que foi ela que te abandonou.  Mas do jeito que ela fala de você, parece que...

Não!!...Ela me ama! Ela tem que me amar! Se não fosse assim ela não estaria comigo. Acho que ela me ama muito mais do que te amava, pois agora ela tem a oportunidade de ensinar. Ela que sempre foi ensinada, agora é ela quem ensina, e isso a emociona!! É isso que a impulsiona a viver, e..., ela está me ensinando tanto...Tudo que ela aprendeu com você, um pouco ela me passa.  Não é engraçado isso Jeremias? ...(ri) ... Ela passar para mim as suas experiências?
...
Ela disse que viveu com você desde os treze anos, isso é verdade? Treze anos? Uma menina? Você não tem vergonha? Uma criança???? 
Mas ela aprendeu tanto não é? Quando temos nas mãos um espírito jovem, nós o moldamos do nosso jeito. Você foi um grande espertalhão, fez com que ela o completasse e juntos se tornaram um. Não sei como ela não se interessou pela pintura, porque tudo que você gosta, ela simplesmente adora. O modo de vestir, de agir, de comer, você a treinou como se treina um cachorrinho, como você é cruel Jeremias!!! Você está nela Jeremias, por quê? Por quê? Por quê?


Deixe-a Jeremias, ela não precisa mais de você, ela já anda com seus próprios pés, já pensa sozinha, já tem suas próprias asas, deixe-a pra mim Jeremias!!!!

...ainda o silêncio

...
Não é assim mesmo Jeremias? Quando ela me contou sobre o amarelo ela me ensinou esta música. Ela disse que o amarelo é a cor da alegria, e que toda vez que você estava triste usava o amarelo, inclusive onde não poderia ter esta cor.

Eu não conseguia entender isso, se você estava triste, por quê usar o amarelo que era a cor da alegria? Você queria mentir pra si mesmo? Aliás era o que você mais fazia não é Jeremias? Você sempre se enganou, sempre se achou o máximo como homem, como amante, como pintor e como sedutor...

Você está se enganando agora Jeremias? Você está usando muito o amarelo, aliás seus últimos quadros têm muito de amarelo, são bonitos, mas refletem o que você está sentindo?  Acho que não, você não parece alegre, ou você mente de novo?...

Eu estava me esquecendo, a Constância quer notícias suas, ela precisa saber como vai sua vida, se você está amando de novo, ou se ainda quer laçá-la novamente em suas teias. O que eu digo a ela?

Por que você não fala Jeremias? Acha que estou falando muito? Por que você não me conta como perdeu a Constância?  Eu não gostaria de passar o que você está passando agora, eu gostaria de morrer junto a ela.  Não suportaria viver sem ela, e acho que não conseguiria mentir pra mim mesmo e pintar tudo de amarelo como você pinta agora. Você está triste, acabado e muito arrependido de ter confiado demais nos seus dotes e ter deixado a Constância bater asas e fugir das suas teias, como tenho dó de você Jeremias, você é um pobre coitado!

Por que você não vai lá em casa Jeremias? Pelo menos a Constância pára de perguntar tanto por você e vê como estou me esforçando para ser igual a você. Pelo menos ela pára de escrever seu nome em tudo quanto é lugar, pára de pensar em suas maneiras quando vê qualquer coisa mais simples que seja, pára de gritar seu nome quando está gozando em nossa cama.

Assim ela verá que é só uma ilusão, que você faz parte de um passado não muito distante, mas que irá como o vento. E verá que você é mesmo um mentiroso, que engana a si mesmo e engana as pessoas que estão a sua volta.

Você não vai dizer nada Jeremias? Este seu silêncio me agride, diga alguma coisa, diga pelo menos que irá lá em casa. Você está surdo? 

Olhe pra mim, veja minhas roupas, meus sapatos, as cores que estou usando, não são parecidos com   as suas?

Quando eu estava vindo para cá tive que trazer uma cesta com as frutas que você gosta, Constância disse que você não saía de casa sem essas frutas, porque nem sempre se acha comida nesta cidade.  Mas antes de tudo tivemos que fazer amor encostado na porta de saída de nossa casa, para que os nossos odores não saíssem de lá. 

Pra que você inventou tudo isso Jeremias? Tem dias que acordo com o corpo coberto de parafina e cheio de manchas vermelhas, resultado dos pingos da vela em chamas. Ela disse que você gostava muito disso, é verdade Jeremias? Você tem gostos tão esquisitos!...


O Natal está chegando, porque você não passa lá em casa?  Você não tem mesmo pra onde ir, assim nos fazia companhia e quem sabe acabávamos com esta história.!!