TELA DO SILÊNCIO
De Acides Ramos
Jeremias se
encontra em um estúdio de pintura. Se prepara para pintar mais um quadro de sua
nova fase. Enquanto mistura delicadamente a tinta em sua palheta, entra
Antônio, que olha demoradamente para Jeremias e começa a falar. Jeremias não
responde, mas seus movimentos com os pincéis deixam explícito o seu estado de
consciência.
Antônio: _ Jeremias, por quê você não vai lá em casa?
Por que você não vai lá em casa Jeremias?
Pra você ver o quanto a Constância está feliz, refeita e robusta. Pra
você ver o quanto nossa casa se parece com a sua, com quadros pendurados por
toda parte. Claro que não foram pintados por você, mas por mim, pois até este
ofício ridículo tive que aprender.
Ah! Jeremias! Mas
valeu a pena, se você ver a cara de felicidade de Constância quando me vê com
os pincéis na mão, se você ver como ela se excita quando me vê sujo com as
cores de sua preferência...
Ela continua a
mesma, gostando das mesmas cores, o vermelho, o amarelo e o preto. São essas
cores que você também gosta não é? Também estou aprendendo a gostar delas!...
Depois que a
Constância me explicou o porquê da preferência por essas cores, eu comecei a
entender como você a prendeu ao seu lado por tanto tempo. Ela me falou tanto do vermelho, ela disse que
você achava o vermelho a cor do desejo, do amor e do sexo. Como ela gosta do
vermelho!!...Quando estou de cueca vermelha ela fica insaciável, ela disse que
você a ensinou a ficar em chamas quando vê o vermelho, e que quando ela estava
menstruada era quando vocês tinham mais relações sexuais, por causa do sangue,
ou melhor, por causa da cor do sangue.
Como você é cruel
Jeremias, agora eu tenho que passar por tudo isso...
Sabe Jeremias,
ultimamente eu tenho tido umas dores de cabeça, como você tinha há uns tempos
atrás, você se lembra? Ainda as tem?
Será o efeito das tintas? A cada dia a Constância me acha mais parecido
com você, veja bem, até nas dores de cabeça!...(ri).
Ontem ao me
levantar me peguei cantando a mesma música que você cantava pra ela quando ela
ficava triste:
Constância, bela Constância
Constância
bela será
Será
o cravo da fortuna
Nas
voltas que o mundo dá
Entrei
no jardim de cores
Não
sei qual escolherei
Escolho a
mais formosa
Com ela te
alegrarei
...
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