segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

TELA DO SILÊNCIO


De Acides Ramos


Jeremias se encontra em um estúdio de pintura. Se prepara para pintar mais um quadro de sua nova fase. Enquanto mistura delicadamente a tinta em sua palheta, entra Antônio, que olha demoradamente para Jeremias e começa a falar. Jeremias não responde, mas seus movimentos com os pincéis deixam explícito o seu estado de consciência.

Antônio:  _ Jeremias, por quê você não vai lá em casa? Por que você não vai lá em casa Jeremias?  Pra você ver o quanto a Constância está feliz, refeita e robusta. Pra você ver o quanto nossa casa se parece com a sua, com quadros pendurados por toda parte. Claro que não foram pintados por você, mas por mim, pois até este ofício ridículo tive que aprender.

Ah! Jeremias! Mas valeu a pena, se você ver a cara de felicidade de Constância quando me vê com os pincéis na mão, se você ver como ela se excita quando me vê sujo com as cores de sua preferência...
Ela continua a mesma, gostando das mesmas cores, o vermelho, o amarelo e o preto. São essas cores que você também gosta não é? Também estou aprendendo a gostar delas!...

Depois que a Constância me explicou o porquê da preferência por essas cores, eu comecei a entender como você a prendeu ao seu lado por tanto tempo.  Ela me falou tanto do vermelho, ela disse que você achava o vermelho a cor do desejo, do amor e do sexo. Como ela gosta do vermelho!!...Quando estou de cueca vermelha ela fica insaciável, ela disse que você a ensinou a ficar em chamas quando vê o vermelho, e que quando ela estava menstruada era quando vocês tinham mais relações sexuais, por causa do sangue, ou melhor, por causa da cor do sangue. 

Como você é cruel Jeremias, agora eu tenho que passar por tudo isso...

Sabe Jeremias, ultimamente eu tenho tido umas dores de cabeça, como você tinha há uns tempos atrás, você se lembra? Ainda as tem?  Será o efeito das tintas? A cada dia a Constância me acha mais parecido com você, veja bem, até nas dores de cabeça!...(ri).

Ontem ao me levantar me peguei cantando a mesma música que você cantava pra ela quando ela ficava triste: 
Constância, bela Constância
                                     Constância bela será
                                      Será o cravo da fortuna
                                     Nas voltas que o mundo dá
                                     Entrei no jardim de cores
                                     Não sei qual escolherei
                                      Escolho a mais formosa
                                      Com ela te alegrarei
...

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