A Torre
No jardim uma formiga
carregava uma imensa folha, meus olhos não conseguiam acreditar que uma
criatura tão pequena pudesse ter tanta força e equilíbrio. Com cuidado levantei a folha e a formiga correu desesperada como se
lhe tirassem o seu mundo. Eu agachada não percebia que estava sendo observada,
já havia algum tempo, até que ele chegou
e me disse: O que olhas tão concentrada ai neste jardim? Eu meio sem graça disse que estava observando
aquela formiga e que não o tinha visto chegar. E ele: Porque não chamaste o
senhor Jacinto? Estas formigas podem acabar com o jardim e as hortaliças, ah
menina, Senhor Jacinto, senhor Jacinto? Saiu ele correndo em volta da casa à
procura do jardineiro.
Após alguns minutos voltou
resmungando que não tinha ninguém em casa e perguntando: Cadê todo mundo? Seu
Jacinto, tua mãe? Eu expliquei que o
jardineiro tinha saído para comprar adubo e minha mãe estava ajudando a dona
Mariquinhas a alvejar as toalhas para a festa da padroeira, e eu... E tu o que
fazes aqui? Estou esperando minha mãe, ela disse que iria demorar, não tem
ninguém lá em casa e aqui é mais seguro. Ah! E como se estivesse pensando como
me agradar, trovejou: Conheces a nova torre? Está quase acabada, já colocaram o
sino, as cordas, agora falta pintar e fazer uma boa limpeza, queres ir lá ver?
Quero, falei sem pensar no quanto meu coração descompassava.
Subimos as escadarias como
duas crianças, a escuridão descompassava ainda mais meu coração, ele segurava a
batina com as duas mãos levantando-a para não tropeçar. Chegamos no alto da
torre ofegantes e uma breve luz da tarde entrava pela janelinha onde o sino
estava pendurado. Cuidado, senão pisas na corda e tocas o sino. E se tocar? Vão
descobrir que estamos aqui. E o que é que tem isso? Não é bom. Porquê? As
pessoas podem maldar,... estás cansada, faças isto, levante os dois braços e
inspire, abaixe-os e expire, isso, de novo, levante, inspire, abaixe, expire.
Está mais calma agora? Estou, mas o senhor está suando, estou sentindo sua
testa encostada em minha nuca, e sua
respiração também está bem agitada, agora o senhor já pode me deixar, já estou
mais calma.
Desvencilhei dos seus
braços que me apertavam e me puxavam de encontro a seu peito, sentia sua
excitação debaixo da batina, de encontro às minhas nádegas, me corei e quis
correr, ele abaixou a cabeça como que envergonhado, comecei a perguntar sobre
os toques do sino e aquele mal-estar foi se apagando levemente.
Quando descemos da torre o
senhor Jacinto já estava chegando com o adubo, e os dois foram para os fundos a
conversar sobre as formigas. Sentei-me
num tronco cortado e fiquei pensando em tudo que acabara de acontecer.
Eu já não era mais uma criança, meus
quadris já realçavam e meus seios já necessitavam serem tapados e enrolados com
uma faixa. Senti que molhara a calcinha e não era menstruação, fazia poucos
dias que ela tinha secado, minhas regras já eram regulares desde os doze anos.
Corri para o banheiro para
ver o que tinha acontecido, não era xixi nem menstruação. Minha combinação também
tinha molhado um pouco, fiquei preocupada que minha mãe visse e perguntasse o
que era, mas isso não aconteceu. Minha mãe chegou, correu para a cozinha a
preparar o jantar do padre Augusto e logo me chamou para ir embora para nossa casa.
Ao chegar em casa tomei
banho depressa e no banheiro lavei minha calcinha e minha combinação, o que foi
um espanto para minha mãe, que nunca me vira fazer aquilo. O que aconteceu
minha filha? Nada mãe, é que quando eu ia entrar na banheira a combinação e a
calcinha caíram e molharam, aí aproveitei e as lavei. Corri a colocar as peças
no varal e voltei para o jantar.
O cheiro do tempero
invadia a casa e minha mãe cantava uma alegre cantiga de roda. Naquela noite só
estávamos nós duas em casa, meu pai e meu irmão estavam garimpando pelos lados
da fazenda do Gualaxo, e só voltariam no fim de semana. Jantamos, fizemos
nossas orações e fomos dormir.
Não consegui, o sino tocava, bem em cima da minha cabeça, o padre Augusto
subia e descia a puxar a corda para que o sino tocasse, quando a corda o puxava
para cima eu via debaixo de sua batina seu sexo ereto e suas nádegas brancas.
Virava de um lado para outro, tapava os olhos com o travesseiro, rezava e nada.
Corri para o quarto de minha mãe e me deitei com ela, só assim que consegui a
esquecer aquela cena. Ela não me disse nada, só que era normal a gente ter medo
de dormir sozinha de vez em quando, principalmente quando nem o pai nem o irmão não estavam em casa.
Fui para o colégio no dia seguinte, e as lições acabaram
me fazendo esquecer tudo. Os dias foram
passando e tudo corria normalmente, nada me perturbava. Não vira mais o padre
Augusto de perto, só durante a missa e na festa da padroeira. Eu e minhas
primas carregamos o andor, geralmente o padre dá uma benção às virgens que
carregam o andor mas dessa vez parece que ele tinha esquecido. Minhas tias
reclamaram, mas minha mãe disse que isso era natural, o padre não tinha tanto
tempo, e desde que ele dava a benção para todos na hora da procissão nós já
estávamos abençoadas.
Após alguns meses tudo já
estava em seu devido lugar, a festa da padroeira já tinha passado, as aulas já
tinham terminado, e minhas férias escolares pareciam começar na mesma rotina,
pic-nic com as tias, brincar de roda com as primas, passeio no sítio da vovó.
Assim se passavam as
férias quando um dia minha mãe me chamou e disse que era para ir para a casa
paroquial, que ela teria que sair com o senhor Jacinto para buscar algumas
mudas de hortaliças e era para eu esquentar o almoço para o padre Augusto, assim
que ele chegasse. Fui tranqüilamente, levei alguns livros para folhear e me
sentei na ante-sala. Padre Augusto chegou e não se surpreendeu com a minha
presença, apenas disse que iria tomar um banho enquanto eu esquentasse o
almoço.
Quando eu estava no fogão
ele me gritou para levar a toalha que já tinha acabado o banho. Corri a
procurar onde mamãe guardava as toalhas e encontrei uma branquinha e macia. Ao
chegar na porta do banheiro bati de leve e senti que a taramela estava solta,
ele estendeu a mão e lhe entreguei a toalha. Com poucos minutos ele chegou na
cozinha com aquele cheiro de sabonete e uma túnica bege para almoçar, não disse
uma palavra, almoçou e foi logo a se deitar na rede para sua sesta.
Almocei, lavei as
vasilhas, limpei a cozinha e fui para o jardim.
A inquietação tomou conta de mim. Um frio misturado com calor subia na
minha espinha dorsal, meu corpo parecia tremer, não conseguia ordenar meus
pensamentos. Peguei os livros e comecei a folheá-los, as letras embaralhavam,
as figuras sumiam, e de repente, estava molhada.
Peguei minha sacola e
corri para o banheiro dos empregados para me banhar. A água morna me dava uma sensação gostosa, me
acalmava, joguei minha cabeça para trás e deixei que aquela coisa boa tomasse
conta de mim. Pela primeira vez me masturbava conscientemente.
Ao terminar, senti que
alguém andava no corredor, desliguei correndo o chuveiro e comecei a me secar.
Com um toque na porta ele perguntou: Tudo bem aí? Eu disse sim, e perguntei se estava
precisando de alguma coisa. Não, apenas percebeu que eu tinha sumido.
Troquei-me, destranquei a porta, quando saí, um susto. Que foi padre? Está
sentindo alguma coisa? Não, eu estava te esperando. Pra que? Vamos na torre,
agora ela já está pronta e limpa. Mas, padre, eu...Vamos, tem que ser agora!
Disse isso segurando firmemente meus braços e fixando os meus olhos.
A sacola caiu no chão,
soltei-me e comecei a correr. Ele também corria, e ríamos, e corríamos, tomei
as escadas da torre e quando já estava lá em cima, muito ofegante, ele chegou.
Me tomou nos braços, e disse que meu cheiro era bom, que eu ficava linda com os
cabelos molhados, que eu estava quentinha, que minha pele era macia, que meus
lábios eram carnudos, que...
Ali nos amamos, a pequena
gota de sangue caíra em sua batina bege, nossos corpos brancos buscavam-se com
sofreguidão, minha combinação e meu vestido estavam na escada como se
escondendo daquela cena, o frenesi de nossos corpos, nossas bocas, nossos olhos
a revirar, as nossas lágrimas, a explosão. Minhas pernas esticaram, tocaram na
corda e o sino tocou.
Bruscamente ele puxou
minhas pernas e disse. Cuidado. Levantou-se colocando apressadamente a batina e
desceu correndo as escadas. Chorei, um choro de emoção, de tristeza, de
arrependimento, de felicidade. Chorei muito. Peguei minha roupa, vesti, desci
as escadas como se estivesse descendo para o inferno. O céu estava ficando para
trás, cada degrau descido doía mais meu coração, as lágrimas voltavam agora
ainda mais confusas, corri para o banheiro.
Tomei novo banho, essa
água morna não me acalmava mais, fechei a torneira quente e deixei a água fria,
me encolhia como se quisesse morrer, ali, debaixo de um chuveiro da casa
paroquial. Fechei as torneiras,
sequei-me, vesti-me. E agora como sair dali, como encará-lo? Quando cheguei na cozinha ouvi barulhos no banheiro social, ele estava
tomando banho também. Será que estava chorando como eu?
Toquei na porta e disse,
padre, posso ir embora? Vá, e não volte mais.
Cabisbaixo peguei minha sacola, meus livros, meus pensamentos, meu
sofrimento, minha felicidade e saí.
Na desordem emocional,
cheguei em casa. Pendurei minha toalha, guardei meus livros, coloquei minha
roupa no balaio de roupa suja. Deitei, dormi. Só acordei com minha mãe
colocando as mãos na minha testa. Que houve minha filha? Você está quente, vá
tomar um banho frio agora, vou preparar um chá para você, foi tudo bem lá na
casa paroquial?, Trouxemos tantas mudas de hortaliças, até aqui pra casa eu
trouxe, era muda demais, você precisava ver, o mundão de horta que eles têm.
Eu não ouvia nada direito,
corri para o banheiro, tomei outro banho enquanto minha mãe preparava o chá,
tomei, agora minha mãe calada, não tirava os olhos de cima de mim. Saí, voltei
para a cama, chorei. Minha mãe me olhava
com aquela interrogação na testa. Sentou-se e colocou minha cabeça no seu colo
e disse: fale, menina, o que tanto te incomoda?
É o padre mãe, ele me fez
mal! Bate na boca menina, não repita isso nunca mais. É verdade mãe, não posso
esconder isso da senhora, aconteceu. Tomara que mal pior não te aconteça,
filha, dorme, amanhã tudo se resolve.
Dormimos, na mesma cama.
De madrugada ouvi o sino, estava sonhando? Não, era mesmo aquele sino, e cada
vez mais forte. Acordei minha mãe, ela se assustou, não deu muita importância,
dormiu de novo. Fiquei pensando até que o sono veio e me roubou os pensamentos.
No dia seguinte, todos
procuravam o padre, todos comentavam aquele sino de madrugada, até que alguém
desceu correndo da torre e gritando, o padre Augusto morreu, o padre Augusto
suicidou.
Na corda do sino estava
pendurado um corpo branco e nu, no chão a mesma batina bege com a mesma gota do
meu sangue. Sentei-me na beira do jardim a olhar se ainda existiam formigas.