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quarta-feira, 22 de junho de 2016
sábado, 4 de junho de 2016
Aparição
Aparição
Um facho da lua
atravessava a fresta da janela, iluminando parcamente o quarto. No beliche ao
lado meus dois companheiros de cela se entregavam em carícias e gemidos,
provavelmente pensavam eles que eu dormia, e para não assustá-los permaneci
imóvel, sem conseguir me concentrar em outros pensamentos. Por fim, extasiados
limparam-se e cada qual procurara seu leito. No relógio da Capela da Boa Morte,
as badaladas da meia noite acabavam de soar. Tentei dormir.
Meus olhos não se
fechavam. O facho da lua aumentava como se a fresta da janela se rendesse ao
seu toque. Levantei-me, corri à janela, uma luz muito forte vinha de fora, não
era da lua, procurei-a e para meu espanto ela vinha do chafariz. A água esguichada
era uma névoa de estonteante brancura, e dentro daquela névoa ela surgiu. Uma
coroa de flores, os cabelos encaracolados escorridos pelos ombros, os seios nus,
os braços estendidos a me chamar. Vem!
- É a virgem, é a
virgem!! Gritei correndo pelos corredores à procura da porta principal. Minhas
mãos tocaram na tranca, outras duas me seguraram pelas costas.
- É a virgem! Ela
está lá fora! Ela está no chafariz e está me chamando!
- Calma, calma, disse
o Monsenhor, você teve um pesadelo!
- Não, não é
pesadelo. Ela está lá fora, e disse vem! Me larga, me solta. Outras mãos já me
dominavam por completo.
Julgava que todo o
seminário estivesse acordado. Levaram-me ao quarto, meus companheiros que antes
gemiam de prazer, agora roncavam como porcos, acordaram com o barulho, e ao ver
tanta gente entrando.
- Acabou, cada um
para sua cela, rosnou o Monsenhor, agora deite-se e durma. Virei para o canto e
senti que quatro olhos me fitavam assustados, deixei que pensassem o que bem
entendessem. No sonho, ela apareceu, agora com uma capa transparente, o tom
rosa dos bicos de seus seios pareciam botões em flor, seu sorriso, como criança
inocente, mordia meu sexo me dominando e me perdendo.
No dia seguinte na
mesa do café tinham do que falar, fiz minhas orações, me alimentei e corri para
a capela.
- Padre, tenho que me
confessar.
- Eu estava te esperando,
meu filho! Fale!
- Eu sonhei com ela
de novo! Dessa vez ela era uma mulher diferente, dava para ver seus seios e ela
mordeu meu sexo, e eu me molhei.
- Deus meu! Você
precisa rezar mais meu filho, sua cabeça está povoada de pensamentos
pecaminosos, hoje ficará sem alimentar, jejuará o resto do dia, tomará somente
água e dormirá no quarto da purificação, vá, é melhor que não se junte aos outros,
recolha-se até que alguém lhe chame para o quarto da purificação, em nome do
Pai do Filho e do Espírito Santo.
Saí chorando e voltei
ao meu quarto. Ouvia ao longe as vozes do canto gregoriano, sentia cada
passagem da missa matinal, mas ela era a única imagem, em cada altar lá estava
ela, em um sorria, no outro a capa transparente mostrava seus contornos, no
outro sua boca parecia me chamar, no outro seus braços estendidos...
- Está na hora! Uma
voz feminina gritara do lado de fora. Saí como se me conduzissem à forca.
- Vai passar meu
filho! Dona Filhinha beijou-me nas faces.
Entrei no quarto da
purificação, no canto um vaso sanitário, no outro uma cama sem colchão, perto
da janela com grades, sobre uma mesa um chicote, velas, crucifixo, uma jarra
com água e um copo.
- Depois Monsenhor
vem falar com você! Fica com Deus meu filho.
Saiu a velha senhora
trancando-me por fora. O frio do quarto me apavorava, comecei a rezar, e em vez
de calma veio a excitação. Esqueci-me da reza e minhas mãos começaram a me
acariciar, tudo ficara rodando, sem cor, sem nexo, as coisas retorcidas
pareciam levitar pelo quarto, até que um barulho no trinco da porta.
- Tudo bem meu filho?
- Não sei Monsenhor, eu...
- Você está pálido, o
que estava fazendo?
- Rezando, Monsenhor.
- E porquê o medo?
Quem reza não tem medo de nada.
- Me assustei com o
senhor.
- Só assustamos
quando estamos fazendo algo de errado, fale meu filho, o que estava acontecendo
quando entrei neste quarto.
- Monsenhor, eu tenho
vergonha de dizer.
- Diga, meu filho!
Pode confiar em mim.
- Bem Monsenhor, eu
comecei a rezar, e em vez de vir a paz fiquei excitado, as coisas começaram a
perder o nexo e comecei a me acariciar, tudo parecia rodar quando o senhor
entrou.
- E acabei te
interrompendo, não é? Isso é normal meu filho! Senta aqui, aqui mais perto de
mim. Olha filho, o demônio está em todos os lugares, até mesmo em um seminário,
você teve um encontro com ele na noite de ontem, por isso essa excitação.
- Mas Monsenhor, o
demônio não pode ser tão bonito quanto aquilo que eu vi, parecia a virgem.
- E ela te chamava
para que?
- Não sei, ela me
estendia os braços.
- E você a desejou,
não é? Você desejaria sexualmente a virgem, nossa mãe, diga filho, você a
desejaria?
- Não, Monsenhor!
- Então filho? Só
podia ser o demônio! Vou ter que lhe castigar filho, esse chicote que aí está é
para isso, tire suas roupas. Tirei-as ficando de cuecas.
- As cuecas também,
filho.
O frio que entrava
pelo quarto era recebido em meu corpo branco e nu, Monsenhor, com o cabo do
chicote começou a me acariciar, lembrei-me dos companheiros de cela e fiquei
excitado. Recebi a primeira chibatada nas costas, como não chorei, recebi outra
mais outra. Minha excitação aumentava, ele chorava e batia, depois fechou a
janela e me masturbou jogando-me na cama.
- Amanhã tudo estará
bem! Fique com Deus meu filho!
A dor moral e física
era insuportável, acordei-me com o barulho do trinco, vesti-me e corri para meu
quarto, tomei banho, as marcas das chibatadas doíam e estavam bem evidentes. Vi
que todos me olhavam com um dó e uma interrogação. Tomei café , não quis ir à
missa matinal. Peguei os livros e dirigi-me à sala de aula. Ninguém nada
perguntou, talvez já sabendo de tudo, ou talvez proibidos de indagarem sobre o
assunto. Veio a noite, o cansaço e o sono me dominaram. Passara a semana sem
novidades, ninguém falava nada, as coisas já se aquietavam. Nas missas matinais
minha participação era certa e solicitada, até que no fim da semana Monsenhor liberou
os seminaristas para visitarem seus familiares.
Para tomar conta das
cabras , do jardim e das hortaliças fora eu designado. O seminário vazio,
somente Dona Filhinha, Monsenhor e eu. No quarto, agora sozinho, sentia falta
de meus companheiros, apesar de saber que me achavam com cara de bobo, pensando
que eu dormia e nunca via nada que faziam.
Peguei um livro, a
vida de Santo Agostinho, comecei a ler, a leitura me extasiava, mas o sono veio
e coloquei-o na cabeceira.
Um canto agudo e
suave era ouvido lá fora, sem fazer barulho abri a janela, lá estava ela, o
mesmo manto, a mesma imagem, ela dançava sensualmente e me estendia os braços,
fechei a janela e saí pelos corredores de forma que não chamasse a atenção do
Monsenhor e de D. Filhinha. Destranquei a porta e corri. O chafariz esguichava
jatos brancos e a luz da lua brincava em suas gotículas. Onde ela poderia estar? Subi na beirada do
chafariz, e ela saiu correndo em direção ao bosque.
- Espere! Gritei
ansioso por conhecê-la.
Com o meu grito luzes
se acenderam e pela porta apareceram o Monsenhor e D. Filhinha com uma tocha
nas mãos. Também corri. Já não existia capa, seu corpo nu transfigurava com a
luz do luar, com muita sensualidade ela olhava para trás e ria alto, sem que eu
a visse mais de perto, pulara no riacho, eu atrás. Tudo escureceu bruscamente,
quando abri os olhos estava deitado no colo de D. Filhinha, e o Monsenhor dando
tapas em meu rosto tentando me acordar. Olhei para o riacho, só vi uma rabanada
de um vulto enorme que subia em seu pequeno leito.
- Era a virgem,
filho? Fitava-me com um leve sorriso o Monsenhor.
Não vi meus
companheiros voltarem do fim de semana,
quando acordei já
estava aqui, alguns dias já haviam passado, e... , com licença, agora tenho que
tomar meu calmante.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
A torre
A Torre
No jardim uma formiga
carregava uma imensa folha, meus olhos não conseguiam acreditar que uma
criatura tão pequena pudesse ter tanta força e equilíbrio. Com cuidado levantei a folha e a formiga correu desesperada como se
lhe tirassem o seu mundo. Eu agachada não percebia que estava sendo observada,
já havia algum tempo, até que ele chegou
e me disse: O que olhas tão concentrada ai neste jardim? Eu meio sem graça disse que estava observando
aquela formiga e que não o tinha visto chegar. E ele: Porque não chamaste o
senhor Jacinto? Estas formigas podem acabar com o jardim e as hortaliças, ah
menina, Senhor Jacinto, senhor Jacinto? Saiu ele correndo em volta da casa à
procura do jardineiro.
Após alguns minutos voltou
resmungando que não tinha ninguém em casa e perguntando: Cadê todo mundo? Seu
Jacinto, tua mãe? Eu expliquei que o
jardineiro tinha saído para comprar adubo e minha mãe estava ajudando a dona
Mariquinhas a alvejar as toalhas para a festa da padroeira, e eu... E tu o que
fazes aqui? Estou esperando minha mãe, ela disse que iria demorar, não tem
ninguém lá em casa e aqui é mais seguro. Ah! E como se estivesse pensando como
me agradar, trovejou: Conheces a nova torre? Está quase acabada, já colocaram o
sino, as cordas, agora falta pintar e fazer uma boa limpeza, queres ir lá ver?
Quero, falei sem pensar no quanto meu coração descompassava.
Subimos as escadarias como
duas crianças, a escuridão descompassava ainda mais meu coração, ele segurava a
batina com as duas mãos levantando-a para não tropeçar. Chegamos no alto da
torre ofegantes e uma breve luz da tarde entrava pela janelinha onde o sino
estava pendurado. Cuidado, senão pisas na corda e tocas o sino. E se tocar? Vão
descobrir que estamos aqui. E o que é que tem isso? Não é bom. Porquê? As
pessoas podem maldar,... estás cansada, faças isto, levante os dois braços e
inspire, abaixe-os e expire, isso, de novo, levante, inspire, abaixe, expire.
Está mais calma agora? Estou, mas o senhor está suando, estou sentindo sua
testa encostada em minha nuca, e sua
respiração também está bem agitada, agora o senhor já pode me deixar, já estou
mais calma.
Desvencilhei dos seus
braços que me apertavam e me puxavam de encontro a seu peito, sentia sua
excitação debaixo da batina, de encontro às minhas nádegas, me corei e quis
correr, ele abaixou a cabeça como que envergonhado, comecei a perguntar sobre
os toques do sino e aquele mal-estar foi se apagando levemente.
Quando descemos da torre o
senhor Jacinto já estava chegando com o adubo, e os dois foram para os fundos a
conversar sobre as formigas. Sentei-me
num tronco cortado e fiquei pensando em tudo que acabara de acontecer.
Eu já não era mais uma criança, meus
quadris já realçavam e meus seios já necessitavam serem tapados e enrolados com
uma faixa. Senti que molhara a calcinha e não era menstruação, fazia poucos
dias que ela tinha secado, minhas regras já eram regulares desde os doze anos.
Corri para o banheiro para
ver o que tinha acontecido, não era xixi nem menstruação. Minha combinação também
tinha molhado um pouco, fiquei preocupada que minha mãe visse e perguntasse o
que era, mas isso não aconteceu. Minha mãe chegou, correu para a cozinha a
preparar o jantar do padre Augusto e logo me chamou para ir embora para nossa casa.
Ao chegar em casa tomei
banho depressa e no banheiro lavei minha calcinha e minha combinação, o que foi
um espanto para minha mãe, que nunca me vira fazer aquilo. O que aconteceu
minha filha? Nada mãe, é que quando eu ia entrar na banheira a combinação e a
calcinha caíram e molharam, aí aproveitei e as lavei. Corri a colocar as peças
no varal e voltei para o jantar.
O cheiro do tempero
invadia a casa e minha mãe cantava uma alegre cantiga de roda. Naquela noite só
estávamos nós duas em casa, meu pai e meu irmão estavam garimpando pelos lados
da fazenda do Gualaxo, e só voltariam no fim de semana. Jantamos, fizemos
nossas orações e fomos dormir.
Não consegui, o sino tocava, bem em cima da minha cabeça, o padre Augusto
subia e descia a puxar a corda para que o sino tocasse, quando a corda o puxava
para cima eu via debaixo de sua batina seu sexo ereto e suas nádegas brancas.
Virava de um lado para outro, tapava os olhos com o travesseiro, rezava e nada.
Corri para o quarto de minha mãe e me deitei com ela, só assim que consegui a
esquecer aquela cena. Ela não me disse nada, só que era normal a gente ter medo
de dormir sozinha de vez em quando, principalmente quando nem o pai nem o irmão não estavam em casa.
Fui para o colégio no dia seguinte, e as lições acabaram
me fazendo esquecer tudo. Os dias foram
passando e tudo corria normalmente, nada me perturbava. Não vira mais o padre
Augusto de perto, só durante a missa e na festa da padroeira. Eu e minhas
primas carregamos o andor, geralmente o padre dá uma benção às virgens que
carregam o andor mas dessa vez parece que ele tinha esquecido. Minhas tias
reclamaram, mas minha mãe disse que isso era natural, o padre não tinha tanto
tempo, e desde que ele dava a benção para todos na hora da procissão nós já
estávamos abençoadas.
Após alguns meses tudo já
estava em seu devido lugar, a festa da padroeira já tinha passado, as aulas já
tinham terminado, e minhas férias escolares pareciam começar na mesma rotina,
pic-nic com as tias, brincar de roda com as primas, passeio no sítio da vovó.
Assim se passavam as
férias quando um dia minha mãe me chamou e disse que era para ir para a casa
paroquial, que ela teria que sair com o senhor Jacinto para buscar algumas
mudas de hortaliças e era para eu esquentar o almoço para o padre Augusto, assim
que ele chegasse. Fui tranqüilamente, levei alguns livros para folhear e me
sentei na ante-sala. Padre Augusto chegou e não se surpreendeu com a minha
presença, apenas disse que iria tomar um banho enquanto eu esquentasse o
almoço.
Quando eu estava no fogão
ele me gritou para levar a toalha que já tinha acabado o banho. Corri a
procurar onde mamãe guardava as toalhas e encontrei uma branquinha e macia. Ao
chegar na porta do banheiro bati de leve e senti que a taramela estava solta,
ele estendeu a mão e lhe entreguei a toalha. Com poucos minutos ele chegou na
cozinha com aquele cheiro de sabonete e uma túnica bege para almoçar, não disse
uma palavra, almoçou e foi logo a se deitar na rede para sua sesta.
Almocei, lavei as
vasilhas, limpei a cozinha e fui para o jardim.
A inquietação tomou conta de mim. Um frio misturado com calor subia na
minha espinha dorsal, meu corpo parecia tremer, não conseguia ordenar meus
pensamentos. Peguei os livros e comecei a folheá-los, as letras embaralhavam,
as figuras sumiam, e de repente, estava molhada.
Peguei minha sacola e
corri para o banheiro dos empregados para me banhar. A água morna me dava uma sensação gostosa, me
acalmava, joguei minha cabeça para trás e deixei que aquela coisa boa tomasse
conta de mim. Pela primeira vez me masturbava conscientemente.
Ao terminar, senti que
alguém andava no corredor, desliguei correndo o chuveiro e comecei a me secar.
Com um toque na porta ele perguntou: Tudo bem aí? Eu disse sim, e perguntei se estava
precisando de alguma coisa. Não, apenas percebeu que eu tinha sumido.
Troquei-me, destranquei a porta, quando saí, um susto. Que foi padre? Está
sentindo alguma coisa? Não, eu estava te esperando. Pra que? Vamos na torre,
agora ela já está pronta e limpa. Mas, padre, eu...Vamos, tem que ser agora!
Disse isso segurando firmemente meus braços e fixando os meus olhos.
A sacola caiu no chão,
soltei-me e comecei a correr. Ele também corria, e ríamos, e corríamos, tomei
as escadas da torre e quando já estava lá em cima, muito ofegante, ele chegou.
Me tomou nos braços, e disse que meu cheiro era bom, que eu ficava linda com os
cabelos molhados, que eu estava quentinha, que minha pele era macia, que meus
lábios eram carnudos, que...
Ali nos amamos, a pequena
gota de sangue caíra em sua batina bege, nossos corpos brancos buscavam-se com
sofreguidão, minha combinação e meu vestido estavam na escada como se
escondendo daquela cena, o frenesi de nossos corpos, nossas bocas, nossos olhos
a revirar, as nossas lágrimas, a explosão. Minhas pernas esticaram, tocaram na
corda e o sino tocou.
Bruscamente ele puxou
minhas pernas e disse. Cuidado. Levantou-se colocando apressadamente a batina e
desceu correndo as escadas. Chorei, um choro de emoção, de tristeza, de
arrependimento, de felicidade. Chorei muito. Peguei minha roupa, vesti, desci
as escadas como se estivesse descendo para o inferno. O céu estava ficando para
trás, cada degrau descido doía mais meu coração, as lágrimas voltavam agora
ainda mais confusas, corri para o banheiro.
Tomei novo banho, essa
água morna não me acalmava mais, fechei a torneira quente e deixei a água fria,
me encolhia como se quisesse morrer, ali, debaixo de um chuveiro da casa
paroquial. Fechei as torneiras,
sequei-me, vesti-me. E agora como sair dali, como encará-lo? Quando cheguei na cozinha ouvi barulhos no banheiro social, ele estava
tomando banho também. Será que estava chorando como eu?
Toquei na porta e disse,
padre, posso ir embora? Vá, e não volte mais.
Cabisbaixo peguei minha sacola, meus livros, meus pensamentos, meu
sofrimento, minha felicidade e saí.
Na desordem emocional,
cheguei em casa. Pendurei minha toalha, guardei meus livros, coloquei minha
roupa no balaio de roupa suja. Deitei, dormi. Só acordei com minha mãe
colocando as mãos na minha testa. Que houve minha filha? Você está quente, vá
tomar um banho frio agora, vou preparar um chá para você, foi tudo bem lá na
casa paroquial?, Trouxemos tantas mudas de hortaliças, até aqui pra casa eu
trouxe, era muda demais, você precisava ver, o mundão de horta que eles têm.
Eu não ouvia nada direito,
corri para o banheiro, tomei outro banho enquanto minha mãe preparava o chá,
tomei, agora minha mãe calada, não tirava os olhos de cima de mim. Saí, voltei
para a cama, chorei. Minha mãe me olhava
com aquela interrogação na testa. Sentou-se e colocou minha cabeça no seu colo
e disse: fale, menina, o que tanto te incomoda?
É o padre mãe, ele me fez
mal! Bate na boca menina, não repita isso nunca mais. É verdade mãe, não posso
esconder isso da senhora, aconteceu. Tomara que mal pior não te aconteça,
filha, dorme, amanhã tudo se resolve.
Dormimos, na mesma cama.
De madrugada ouvi o sino, estava sonhando? Não, era mesmo aquele sino, e cada
vez mais forte. Acordei minha mãe, ela se assustou, não deu muita importância,
dormiu de novo. Fiquei pensando até que o sono veio e me roubou os pensamentos.
No dia seguinte, todos
procuravam o padre, todos comentavam aquele sino de madrugada, até que alguém
desceu correndo da torre e gritando, o padre Augusto morreu, o padre Augusto
suicidou.
Na corda do sino estava
pendurado um corpo branco e nu, no chão a mesma batina bege com a mesma gota do
meu sangue. Sentei-me na beira do jardim a olhar se ainda existiam formigas.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
fim
...
O tempo mudou
muito, não é? É sempre assim, quando se aproxima o Natal, começa a esfriar, a
chover e as pessoas ficam melancólicas. Mas o espírito de Natal faz com que
tudo isso passe em brancas nuvens, em todos os lares se preparam os doces, os
enfeites, as músicas...
Viu como a cidade
está bonita? Toda iluminada! Isso não te deixa feliz? É nessa época que as pessoas
fazem as pazes, perdoam-se mutuamente, fazem novos planos para o ano vindouro,
andam com os pensamentos voltados para a renovação. É muito bonito isso, você
não acha?
A Constância está
curtindo frutas, ela disse que você gosta muito de frutas curtidas e que no Natal passado vocês
fizeram juntos sete frutas curtidas, você fez alguma este ano? É ruim fazer as
coisas só pra gente não é? Quando eu vivia sozinho, achava péssimo o Natal e o
fim de ano.
Por quê você não
passa o Natal lá em casa? Poderíamos convidar alguns amigos seus e de
Constância, porque os meus amigos não passam o Natal aqui! Aí poderíamos fazer
uma brincadeira de amigo oculto, assim ninguém ficaria sem presente, o que você
acha?
Ora Jeremias, estou
tentando ser seu amigo, estou tentando te conhecer melhor, por quê você não
fala comigo? A Constância gostaria que fôssemos amigos e eu não me oponho,
sempre achei você um cara formidável, um pouco convencido, mas mesmo assim uma
pessoa amigável.
Quando eu conheci
vocês, eu sempre dizia: “como são parecidos” ou “ aí está um cara de sorte”. Eu
via como a Constância se parecia com você e sinceramente eu não sabia de quem
eu mais gostava, só sabia que queria ser amigo de vocês. Por quê você viajou em
Janeiro Jeremias? Por quê deixou Constância sozinha? Eu fiquei com pena, minhas
visitas se tornaram freqüentes, aí,
aconteceu!!!
Mas eu não me
arrependo Jeremias. Eu desejei Constância mais do que qualquer coisa no mundo,
sei que foi você o maior amor da vida dela, mas hoje quem ela ama sou eu. Ouviu
Jeremias? Sou eu quem ela ama! Ouviu seu surdo, sou eu que tenho me sentar com
ela à mesa na hora das refeições, sou eu que tenho massagear os pés dela todas
as noites antes de dormir, sou eu que tenho vestir estas roupas ridículas,
porque é assim que você gosta. Seu filho da puta, sou eu que tenho ver seu nome
escrito em todos os lugares, sou eu que tenho aturar violetas por todo o canto
da casa, que tenho pintar todos os dias para que a Constância me deseje. Seu depravado, mascarado, viado, sou eu que
tenho aguentar os dedos de Constância no meu cu, porque ela disse que era assim
que você gozava, sou eu que tenho ser você a todo momento.
Seu sacana, por que
você me faz passar por tudo isso? Por que tenho agentar tudo isso? Oh,
Jeremias, você é mesmo assim? Como eu te odeio, por que você não sai de nossa
vida?
Eu estou
enlouquecendo Jeremias, já nem sei do que gosto, a única coisa que sei é que
tenho de me parecer com você.
...
Agora, uma coisa
aprendi a gostar de verdade, é quando nos lambuzamos de doce e fazemos amor.
Adoro a Constância espalhando um doce em meu corpo e depois o retirando com a
língua. Ela disse que foi você quem a
ensinou, mas eu não acho! Tem muito dela nessa história. Você também gostava
não é Jeremias? É uma pena que você a perdeu não é? Você a perdeu e eu a tenho,
e tenho de ser você o tempo todo!!!
Já nem sei se sou
eu ou se sou você.
Jeremias, tem uma
cor que você não classificou e que eu estou usando muito ultimamente, sabe qual
é? O cinza, eu acho que é a cor do crime, do ódio, do assassinato....o que você
acha?
Agora vou me calar,
você quer falar alguma coisa?
...
Por quê você não
vai lá em casa Jeremias?
...
Por quê você não
morre Jeremias?
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
...
...
Você não vai falar
nada Jeremias? Vai ficar aí com essa cara de vencedor, como quem diz: Ela ainda
me ama! Você acha realmente que ela ainda o ama, só porque foi o primeiro na
vida dela? Isto não quer dizer nada, as primeiras relações sexuais são sempre
muito dolorosas, apesar de Constância gostar de sentir dores. Droga!!Droga!!
Droga!! Ela gosta de sentir dores na hora da penetração!!!....
Mas nada disso
importa não é Jeremias? Hoje ela está comigo e eu a faço feliz, mesmo tendo que
me parecer com você. Sou eu quem a aqueço nas noites de frio, sou eu quem a
leva nos infernos na hora do gozo, mesmo ela gritando o seu nome, sou eu quem a
acolhe na hora da tristeza, mesmo cantando a sua ridícula música, sou eu, sou
eu sou, eu.. Sou eu Jeremias?
Ah, você está
nervoso! Está usando o preto! A
Constância disse que você sempre usava o preto quando estava nervoso ou quando
alguma coisa o incomodava. Eu te incomodo Jeremias? As coisas que digo te
incomodam? Se eu te incomodo é porque você me acha melhor que você, mesmo não
achando eu estou melhor que você, pois tenho uma coisa que você ama. Use o
preto Jeremias, pois preciso copiar você, não tenho de ser igual a você para
satisfazer Constância? Vá Jeremias, o preto é uma cor bonita, a Constância
adora o preto. Ela não tirava a roupa e lhe oferecia quando você estava com
raiva? Agora quando quero que ela me
satisfaça, finjo estar com raiva e pinto as telas de preto, (ri) ... ela vem
como uma cadelinha no cio e me oferece aquele corpo cheiroso só para acabar com
a minha suposta raiva.
Você a treinou bem
Jeremias! Pena que não a manteve não é? Você a treinou e quem a usa sou eu, sou
eu, sou eu... Sou eu Jeremias? Não Jeremias, não sou eu! Acho que virei você,
estou ficando sem personalidade definida. Constância me faz a cada dia uma nova
exigência, a cada dia ela quer que eu me pareça com você, quer que eu goste das
mesmas coisas de que você gostava, até das violetas!
Você ainda gosta
das violetas Jeremias? As nossas estão lindas, temos de diversas cores,
Constância cuida muito bem delas, quem cuida das suas agora? Ou você já
desistiu também das violetas? Talvez
elas façam você se lembrar de Constância, é isso Jeremias? Você não diz nada, acabo
tirando minhas próprias conclusões! Por que você não me ajuda? Preciso te
conhecer melhor, Constância vive falando do seu otimismo, da sua maneira de
pensar positivamente, da forma que você consegue as coisas que te interessam,
do seu senso de humor e tudo que acontece nos seus relacionamentos sociais. Eu
fico tentando entender, como você pode ser otimista, acreditar em pensamentos
positivos, em leis de triunfo, se nada disso ajudou a conservar Constância
junto de você? Ou foi você que não a quis?
Oh, Jeremias! Fale
comigo! Me diga a verdade, se ela foi rejeitada, eu é que estou enganado! Eu
sempre acho que fui eu quem a conquistou, quem a tirou de você, eu sempre acho
que foi ela que te abandonou. Mas do
jeito que ela fala de você, parece que...
Não!!...Ela me ama!
Ela tem que me amar! Se não fosse assim ela não estaria comigo. Acho que ela me
ama muito mais do que te amava, pois agora ela tem a oportunidade de ensinar.
Ela que sempre foi ensinada, agora é ela quem ensina, e isso a emociona!! É
isso que a impulsiona a viver, e..., ela está me ensinando tanto...Tudo que ela
aprendeu com você, um pouco ela me passa.
Não é engraçado isso Jeremias? ...(ri) ... Ela passar para mim as suas
experiências?
...
Ela disse que viveu
com você desde os treze anos, isso é verdade? Treze anos? Uma menina? Você não
tem vergonha? Uma criança????
Mas ela aprendeu tanto não é? Quando temos nas mãos um
espírito jovem, nós o moldamos do nosso jeito. Você foi um grande espertalhão,
fez com que ela o completasse e juntos se tornaram um. Não sei como ela não se
interessou pela pintura, porque tudo que você gosta, ela simplesmente adora. O
modo de vestir, de agir, de comer, você a treinou como se treina um
cachorrinho, como você é cruel Jeremias!!! Você está nela Jeremias, por quê?
Por quê? Por quê?
Deixe-a Jeremias,
ela não precisa mais de você, ela já anda com seus próprios pés, já pensa
sozinha, já tem suas próprias asas, deixe-a pra mim Jeremias!!!!
...ainda o silêncio
...
Não é assim mesmo
Jeremias? Quando ela me contou sobre o amarelo ela me ensinou esta música. Ela
disse que o amarelo é a cor da alegria, e que toda vez que você estava triste
usava o amarelo, inclusive onde não poderia ter esta cor.
Eu não conseguia
entender isso, se você estava triste, por quê usar o amarelo que era a cor da
alegria? Você queria mentir pra si mesmo? Aliás era o que você mais fazia não é
Jeremias? Você sempre se enganou, sempre se achou o máximo como homem, como
amante, como pintor e como sedutor...
Você está se
enganando agora Jeremias? Você está usando muito o amarelo, aliás seus últimos
quadros têm muito de amarelo, são bonitos, mas refletem o que você está
sentindo? Acho que não, você não parece
alegre, ou você mente de novo?...
Eu estava me
esquecendo, a Constância quer notícias suas, ela precisa saber como vai sua
vida, se você está amando de novo, ou se ainda quer laçá-la novamente em suas
teias. O que eu digo a ela?
Por que você não
fala Jeremias? Acha que estou falando muito? Por que você não me conta como
perdeu a Constância? Eu não gostaria de
passar o que você está passando agora, eu gostaria de morrer junto a ela. Não suportaria viver sem ela, e acho que não
conseguiria mentir pra mim mesmo e pintar tudo de amarelo como você pinta
agora. Você está triste, acabado e muito arrependido de ter confiado demais nos
seus dotes e ter deixado a Constância bater asas e fugir das suas teias, como
tenho dó de você Jeremias, você é um pobre coitado!
Por que você não
vai lá em casa Jeremias? Pelo menos a Constância pára de perguntar tanto por
você e vê como estou me esforçando para ser igual a você. Pelo menos ela pára
de escrever seu nome em tudo quanto é lugar, pára de pensar em suas maneiras
quando vê qualquer coisa mais simples que seja, pára de gritar seu nome quando
está gozando em nossa cama.
Assim ela verá que
é só uma ilusão, que você faz parte de um passado não muito distante, mas que
irá como o vento. E verá que você é mesmo um mentiroso, que engana a si mesmo e
engana as pessoas que estão a sua volta.
Você não vai dizer
nada Jeremias? Este seu silêncio me agride, diga alguma coisa, diga pelo menos
que irá lá em casa. Você está surdo?
Olhe pra mim, veja
minhas roupas, meus sapatos, as cores que estou usando, não são parecidos
com as suas?
Quando eu estava
vindo para cá tive que trazer uma cesta com as frutas que você gosta,
Constância disse que você não saía de casa sem essas frutas, porque nem sempre
se acha comida nesta cidade. Mas antes
de tudo tivemos que fazer amor encostado na porta de saída de nossa casa, para
que os nossos odores não saíssem de lá.
Pra que você
inventou tudo isso Jeremias? Tem dias que acordo com o corpo coberto de
parafina e cheio de manchas vermelhas, resultado dos pingos da vela em chamas.
Ela disse que você gostava muito disso, é verdade Jeremias? Você tem gostos tão
esquisitos!...
O Natal está
chegando, porque você não passa lá em casa?
Você não tem mesmo pra onde ir, assim nos fazia companhia e quem sabe
acabávamos com esta história.!!
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
TELA DO SILÊNCIO
De Acides Ramos
Jeremias se
encontra em um estúdio de pintura. Se prepara para pintar mais um quadro de sua
nova fase. Enquanto mistura delicadamente a tinta em sua palheta, entra
Antônio, que olha demoradamente para Jeremias e começa a falar. Jeremias não
responde, mas seus movimentos com os pincéis deixam explícito o seu estado de
consciência.
Antônio: _ Jeremias, por quê você não vai lá em casa?
Por que você não vai lá em casa Jeremias?
Pra você ver o quanto a Constância está feliz, refeita e robusta. Pra
você ver o quanto nossa casa se parece com a sua, com quadros pendurados por
toda parte. Claro que não foram pintados por você, mas por mim, pois até este
ofício ridículo tive que aprender.
Ah! Jeremias! Mas
valeu a pena, se você ver a cara de felicidade de Constância quando me vê com
os pincéis na mão, se você ver como ela se excita quando me vê sujo com as
cores de sua preferência...
Ela continua a
mesma, gostando das mesmas cores, o vermelho, o amarelo e o preto. São essas
cores que você também gosta não é? Também estou aprendendo a gostar delas!...
Depois que a
Constância me explicou o porquê da preferência por essas cores, eu comecei a
entender como você a prendeu ao seu lado por tanto tempo. Ela me falou tanto do vermelho, ela disse que
você achava o vermelho a cor do desejo, do amor e do sexo. Como ela gosta do
vermelho!!...Quando estou de cueca vermelha ela fica insaciável, ela disse que
você a ensinou a ficar em chamas quando vê o vermelho, e que quando ela estava
menstruada era quando vocês tinham mais relações sexuais, por causa do sangue,
ou melhor, por causa da cor do sangue.
Como você é cruel
Jeremias, agora eu tenho que passar por tudo isso...
Sabe Jeremias,
ultimamente eu tenho tido umas dores de cabeça, como você tinha há uns tempos
atrás, você se lembra? Ainda as tem?
Será o efeito das tintas? A cada dia a Constância me acha mais parecido
com você, veja bem, até nas dores de cabeça!...(ri).
Ontem ao me
levantar me peguei cantando a mesma música que você cantava pra ela quando ela
ficava triste:
Constância, bela Constância
Constância
bela será
Será
o cravo da fortuna
Nas
voltas que o mundo dá
Entrei
no jardim de cores
Não
sei qual escolherei
Escolho a
mais formosa
Com ela te
alegrarei
...
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